A pergunta “quem deve tomar suplementos alimentares?” surge cada vez mais em consultas de rotina, nas redes sociais e até em conversas de café. A oferta de suplementos alimentares cresce todos os dias e é fácil sentir que “toda a gente” precisa de comprimidos, cápsulas ou pós para ser saudável. Mas a verdade é bem diferente: nem todas as pessoas precisam de suplementos alimentares e, em alguns casos, o seu uso pode até trazer riscos.
Neste artigo vamos explicar, de forma clara e baseada na evidência científica, em que situações os suplementos alimentares fazem sentido, quem realmente pode beneficiar com a suplementação e quando o melhor é apostar apenas numa alimentação equilibrada.
Ao longo do texto, encontrará também orientações práticas para falar com o seu profissional de saúde e fazer escolhas mais seguras quando pensa em
suplementos.
O que são suplementos alimentares?
Os suplementos alimentares são produtos que têm como objetivo complementar a dieta normal, fornecendo vitaminas, minerais, ácidos gordos, fibras, plantas ou outros ingredientes com efeito nutricional ou fisiológico. Normalmente apresentam-se em comprimidos, cápsulas, pós, gotas ou ampolas de dose única e são pensados para serem tomados em quantidades pequenas e bem definidas ao longo do dia.
É importante perceber que suplementos alimentares não são medicamentos. Ou seja, não servem para tratar doenças agudas, substituir terapêutica médica ou “curar” problemas de saúde. A sua função é ajudar a corrigir carências nutricionais, apoiar fases específicas da vida ou responder a necessidades aumentadas do organismo, sempre como complemento de uma alimentação variada e equilibrada.
Também é essencial lembrar que “mais” não significa “melhor”. Muitos nutrientes têm limites máximos de segurança por dia. Em doses excessivas, alguns suplementos alimentares podem causar efeitos adversos sérios, como problemas hepáticos, renais, cardiovasculares ou neurológicos. Por isso, a pergunta certa não é “posso tomar?”, mas sim “preciso mesmo de tomar?”.
Quem deve tomar suplementos alimentares?
Embora a maioria das pessoas saudáveis não precise de suplementação diária, existem grupos em que o uso de suplementos alimentares é recomendado ou, pelo menos, frequentemente necessário. A seguir, explicamos os principais casos em que a suplementação pode ser uma aliada.
1. Grávidas, mulheres a tentar engravidar e no pós-parto
A gravidez é uma fase em que as necessidades nutricionais aumentam de forma significativa. Em muitas situações, apenas a alimentação não é suficiente para atingir as doses recomendadas de alguns nutrientes essenciais, pelo que os suplementos alimentares são, aqui, mais do que uma moda – são uma recomendação clínica.
Entre os suplementos alimentares mais importantes nesta fase destacam-se:
- Ácido fólico (vitamina B9) – recomendado antes da conceção e durante o primeiro trimestre, reduz de forma significativa o risco de defeitos do tubo neural no bebé. A dose mais habitual situa-se nas 400 microgramas por dia em mulheres sem fatores de risco adicionais.
- Ferro – muitas mulheres entram na gravidez já com reservas baixas de ferro. A suplementação durante a gestação é frequentemente indicada para prevenir ou tratar anemia e apoiar o desenvolvimento do feto.
- Vitamina D – especialmente importante em mulheres com pouca exposição solar, pele escura ou com risco aumentado de défice. Pode ser recomendada uma dose diária específica, ajustada pelo médico de acordo com as análises.
- Iodo – em alguns países, é sugerida a suplementação de iodo para apoiar o desenvolvimento neurológico do bebé, sobretudo quando o consumo de sal iodado e de peixe é baixo.
Em todas estas situações, é fundamental que os suplementos alimentares sejam escolhidos e ajustados pelo médico ou nutricionista, para evitar doses excessivas ou combinações desnecessárias. A automedicação com vários produtos ao mesmo tempo pode aumentar o risco de toxicidade ou de interações com outros medicamentos.
2. Bebés, crianças e adolescentes em risco de carências
A infância e a adolescência são períodos de crescimento rápido, em que o organismo precisa de nutrientes em quantidades adequadas para formar ossos, músculos, cérebro e sistema imunitário. Em muitos casos, uma alimentação equilibrada é suficiente. Mas há situações em que suplementos alimentares podem ser necessários.
Alguns exemplos comuns incluem:
- Vitamina D em bebés e crianças com pouca exposição solar, alimentação limitada ou pele escura, de acordo com as recomendações do pediatra.
- Suplementação com ferro em crianças com anemia diagnosticada ou em risco elevado.
- Multivitamínicos específicos quando há seletividade alimentar marcada, dificuldades alimentares prolongadas ou condições clínicas que comprometam a absorção de nutrientes.
Em idade pediátrica, suplementos alimentares nunca devem ser iniciados sem a avaliação de um profissional de saúde. As doses são ajustadas ao peso, idade e estado clínico, e o excesso de certos nutrientes (como vitamina A ou D) pode ser perigoso.
3. Pessoas idosas
O envelhecimento traz alterações naturais na digestão, na absorção de nutrientes e no apetite. Muitos idosos comem menos, têm menos exposição solar ou tomam vários medicamentos que interferem com a absorção de vitaminas e minerais. Nestes casos, suplementos alimentares bem escolhidos podem ser uma ajuda importante.
Entre os nutrientes mais frequentemente necessários na população idosa encontram-se:
- Vitamina D, essencial para a saúde óssea e muscular, sobretudo em quem passa pouco tempo ao ar livre ou vive em instituições.
- Vitamina B12, cuja absorção tende a diminuir com a idade, principalmente em pessoas com gastrite atrófica, uso prolongado de antiácidos ou cirurgia gástrica prévia.
- Cálcio, em casos selecionados, quando a alimentação não assegura a ingestão necessária e existe risco ou diagnóstico de osteoporose.
- Suplementos de proteína ou fórmulas específicas em idosos com sarcopenia (perda de massa e força muscular), sempre acompanhados de exercício físico adaptado.
Mais uma vez, a avaliação individual é essencial. Nem todos os idosos beneficiam de multivitamínicos generalizados, mas muitos podem ganhar qualidade de vida com um plano de suplementação desenhado à medida.
4. Pessoas com dietas restritivas (vegan, vegetariana ou com exclusões alimentares)
Dietas bem planeadas, incluindo padrões alimentares vegetarianos ou veganos, podem ser saudáveis. No entanto, quando se excluem certos grupos de alimentos, torna-se mais difícil obter algumas vitaminas e minerais apenas através da alimentação. Nestas situações, alguns suplementos alimentares não são opcionais, são praticamente obrigatórios.
Os casos mais frequentes são:
- Vitamina B12 – praticamente só existe em alimentos de origem animal. Pessoas veganas e muitos vegetarianos precisam de um suplemento regular de B12 para evitar défice, com doses adaptadas pelo profissional de saúde.
- Vitamina D – especialmente em quem tem pouca exposição solar ou vive em latitudes com menos horas de sol no inverno.
- Ferro, zinco, cálcio ou iodo – podem ser necessários em alguns casos, sobretudo em dietas muito restritivas, baixa ingestão calórica ou presença de outras doenças.
- Ácidos gordos ómega 3 (EPA/DHA) – quando o consumo de peixe gordo é nulo, pode ser interessante considerar suplementos à base de algas, sob orientação.
Se segue uma dieta com muitas exclusões, falar com um nutricionista é um passo essencial antes de iniciar suplementos alimentares por iniciativa própria.
5. Pessoas com doenças crónicas ou condições que afetam a absorção de nutrientes
Algumas doenças aumentam as necessidades de determinados nutrientes ou dificultam a sua absorção no intestino. Nestes casos, a suplementação pode fazer parte do plano terapêutico global. Exemplos comuns incluem:
- Doenças inflamatórias intestinais, doença celíaca, cirurgia bariátrica ou outras condições que diminuam a absorção de vitaminas e minerais.
- Doenças ósseas, como osteoporose ou osteomalácia, em que pode ser necessário suplementar vitamina D, cálcio ou outros nutrientes específicos.
- Anemias carenciais documentadas (ferro, B12, ácido fólico), em que suplementos alimentares são usados como parte do tratamento.
- Patologias renais ou hepáticas, nas quais a suplementação deve ser extremamente cautelosa e sempre definida pelo médico assistente.
Nestes contextos, os suplementos alimentares funcionam mais como “ferramentas clínicas” do que como produtos de bem-estar geral. A dose, a forma química do nutriente e a duração do tratamento devem ser ajustadas com rigor.
6. Desportistas e pessoas com treino físico intenso
O mundo do desporto é um dos que mais recorre a suplementos alimentares, desde proteína em pó a creatina, passando por aminoácidos, bebidas de recuperação, cafeína e muitos outros. Em atletas ou praticantes de exercício intenso e regular, as necessidades energéticas e proteicas podem ser superiores às da população geral, o que abre espaço para uma suplementação bem planeada.
Alguns suplementos alimentares com melhor evidência para uso desportivo incluem:
- Proteína em pó (como whey, caseína ou fontes vegetais), quando a alimentação não chega para cobrir as necessidades diárias de proteína.
- Creatina, com eficácia demonstrada em ganhos de força e massa muscular em treinos de alta intensidade, desde que não existam contraindicações individuais.
- Cafeína em doses controladas, em determinados contextos, para melhoria de desempenho em modalidades específicas.
Mesmo nestes casos, o ideal é que a base seja sempre um plano alimentar bem estruturado. Suplementos alimentares entram apenas para afinar detalhes e nunca para compensar uma alimentação pobre ou desorganizada.
7. Pessoas com pouca exposição solar e risco de défice de vitamina D
A vitamina D tem um papel central na saúde óssea, muscular e imunitária. Em muitos países europeus, recomenda-se que todas as pessoas considerem um suplemento diário de vitamina D durante os meses de outono e inverno, sobretudo quem passa pouco tempo ao ar livre, tem pele escura ou cobre grande parte do corpo com roupa.
A dose ideal depende da idade, do peso, de eventuais doenças associadas e dos níveis de vitamina D no sangue. Em geral, recomendações europeias apontam para cerca de 15 microgramas por dia em adultos saudáveis, enquanto o limite máximo de segurança para a maioria dos adultos é de 100 microgramas por dia, somando dieta e suplementos.
Apesar da popularidade dos suplementos alimentares com vitamina D, a automedicação com doses muito elevadas pode causar toxicidade, com aumento exagerado do cálcio no sangue e complicações graves. A mensagem é simples: suplementar vitamina D pode ser uma excelente ideia em muitos casos, mas deve ser feito com orientação profissional.
Quem não deve tomar suplementos alimentares sem orientação?
Se, por um lado, alguns grupos beneficiam nitidamente da suplementação, por outro, há situações em que tomar suplementos alimentares por iniciativa própria é um risco claro. Entre os grupos que devem ter especial cautela encontram-se:
- Pessoas com doença renal ou hepática, em que o excesso de certos nutrientes pode agravar a função destes órgãos.
- Pessoas que tomam vários medicamentos em simultâneo, devido ao risco de interações (por exemplo, entre suplementos de vitamina K e anticoagulantes, ou entre cálcio e certos antibióticos).
- Crianças e adolescentes, em que o uso de suplementos alimentares deve ser sempre supervisionado pelo pediatra.
- Pessoas que fazem já tratamento com vitaminas ou minerais prescritos (por exemplo, vitamina D em doses terapêuticas), pois o uso adicional de suplementos de venda livre pode somar-se e ultrapassar as doses seguras.
Outro grupo a considerar são as pessoas que juntam vários produtos ao mesmo tempo: multivitamínico, mais suplemento de vitamina D, mais cálcio, mais magnésio, mais produtos “para a imunidade”. Quando se somam diferentes suplementos alimentares com nutrientes sobrepostos, o risco de exceder o limite seguro aumenta de forma importante.
Para reduzir estes riscos, é útil manter uma lista atualizada de todos os suplementos alimentares e medicamentos que está a tomar e partilhá-la com o seu médico em cada consulta.
Como saber se realmente precisa de suplementos alimentares?
A decisão de tomar ou não suplementos alimentares deve partir sempre de uma avaliação individual. Em vez de seguir recomendações genéricas, campanhas de marketing ou conselhos de amigos, vale a pena fazer um pequeno “check-up” pessoal:
- Tem uma alimentação variada, com frutas, legumes, leguminosas, cereais integrais, frutos gordos, peixe, ovos e laticínios (se não for vegano)?
- Pertence a algum dos grupos de risco descritos acima (gravidez, idade avançada, doenças crónicas, dieta restritiva, baixa exposição solar)?
- Já realizou análises recentes que mostrem défice de alguma vitamina ou mineral?
- Toma medicamentos que possam interferir com a absorção de nutrientes?
Com base nestas respostas, um nutricionista ou médico pode recomendar mudanças na alimentação, pedir análises específicas ou sugerir suplementos alimentares adequados ao seu caso. Muitas vezes, corrigir a alimentação é o passo mais eficaz e sustentável a longo prazo.
Como escolher e utilizar suplementos alimentares em segurança
Quando, depois de uma avaliação adequada, se conclui que um suplemento alimentar faz sentido, a escolha do produto e a forma como é utilizado são tão importantes quanto a decisão de o tomar. Alguns cuidados básicos podem fazer uma grande diferença na segurança e eficácia:
- Ler sempre o rótulo com atenção: dose diária recomendada, ingredientes, advertências e contraindicações.
- Confirmar a quantidade do nutriente por dose e compará-la com as recomendações oficiais, evitando ultrapassar os limites máximos seguros, salvo indicação médica.
- Evitar duplicar nutrientes em vários produtos ao mesmo tempo (por exemplo, multivitamínico mais vários suplementos isolados com os mesmos minerais ou vitaminas).
- Escolher marcas com boa rastreabilidade, rotulagem clara e, idealmente, controlos de qualidade independentes.
- Reavaliar periodicamente a necessidade de continuar a tomar o suplemento, em vez de o manter indefinidamente sem revisão.
Se tiver dúvidas na altura de escolher, procure informação rigorosa sobre
suplementos e fale com um profissional de saúde que o ajude a interpretar rótulos, doses e combinações possíveis.
Suplementos alimentares
Voltando à pergunta inicial “quem deve tomar suplementos alimentares?”, a resposta é mais equilibrada do que muitas vezes vemos nas redes sociais. Suplementos alimentares são ferramentas úteis e, em alguns casos, essenciais (como na gravidez, em défices documentados, em dietas veganas ou em certas doenças). Mas não são uma solução mágica, nem substituem um padrão alimentar saudável, sono adequado, gestão do stress e atividade física regular.
Se sente que pode precisar de apoio nutricional extra, o primeiro passo não é comprar o suplemento mais popular do momento, mas sim procurar uma avaliação personalizada. A partir daí, com base em exames, história clínica e objetivos de saúde, é possível definir se um suplemento alimentar faz sentido, qual, em que dose e por quanto tempo.
Em resumo: para muitas pessoas, o melhor “suplemento” ainda é organizar as refeições, cozinhar mais em casa e cuidar globalmente do estilo de vida. Mas, quando bem usados e bem escolhidos, os suplementos alimentares podem ser aliados importantes para garantir que o seu corpo tem tudo o que precisa, na dose certa e no momento certo.
Referências bibliográficas
- EFSA Panel on Dietetic Products, Nutrition and Allergies. Dietary reference values for vitamin D. EFSA Journal. 2016;14(10):4547. Disponível em: https://doi.org/10.2903/j.efsa.2016.4547.
- EFSA Panel on Nutrition, Novel Foods and Food Allergens. Scientific opinion on the tolerable upper intake level for vitamin D, including the derivation of a conversion factor for calcidiol monohydrate. EFSA Journal. 2023;21(8):e08145. Disponível em: https://doi.org/10.2903/j.efsa.2023.8145.
- Viswanathan M, Urrutia RP, Hudson KN, et al. Folic Acid Supplementation to Prevent Neural Tube Defects: Updated Evidence Report and Systematic Review for the US Preventive Services Task Force. JAMA. 2023;330(5):460-466. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2807740.
- Barry MJ, Nicholson WK, Silverstein M, et al. Folic Acid Supplementation to Prevent Neural Tube Defects: US Preventive Services Task Force Reaffirmation Recommendation Statement. JAMA. 2023;330(5):454-459. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2807739.
- Fernandes S, Oliveira L, Pereira A, et al. Exploring Vitamin B12 Supplementation in the Vegan Population: A Scoping Review of the Evidence. Nutrients. 2024;16(10):1442. Disponível em: https://doi.org/10.3390/nu16101442.
- Nunes EA, Colenso-Semple L, McKellar SR, et al. Systematic review and meta-analysis of protein intake to support muscle mass and function in healthy adults. Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle. 2022;13(2):795-810. Disponível em: https://doi.org/10.1002/jcsm.12922.
- Khan SU, Lone AN, Khan MS, et al. Effect of omega-3 fatty acids on cardiovascular outcomes: a systematic review and meta-analysis. EClinicalMedicine. 2021;38:100997. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2021.100997.
- Djuricic I, Calder PC. N-3 Fatty Acids (EPA and DHA) and Cardiovascular Health: Updated Review of Mechanisms and Clinical Outcomes. Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care. 2025;28(1):1-9. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41247613/.
- Loftfield E, Freedman ND, Dodd KW, et al. Multivitamin Use and Mortality Risk in 3 Prospective US Cohorts. JAMA Network Open. 2024;7(6):e2410159. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2820369.



